quinta-feira, 10 de julho de 2008

Força de Lei de Derrida

Reproduzo artigo da filósofa Marcia Tiburi.

Não sei se porque admiro a Marcia ou do Derrida.

Talvez ambos.

Força de Lei

"Difícil sugerir um livro de filosofia nos dias de hoje. Do jeito que vai este nosso Brasil é difícil sugerir qualquer livro. Talvez a falta de livros, inclusive, seja mesmo um dos tantos motivos pelos quais violência e barbárie crescem entre nós. Não é mais possível defender a teoria do bom selvagem atualizada em elogio da ignorância, coisa que se vê ainda por aí. Quando falo “entre nós” não é um plural ilustrativo. Penso naquela violência que é gestada no mínimo, no universo micro-físico da nossa vida e que, descontrolada, vira lei, regra e ordem. O estado de exceção não é só a lei imposta pela força, mas a lei que nos força, a cada dia, à submissão à violência. Lei que é estranhamente acolhida por todos nós.
Mesmo assim, quero sugerir mais um livro. Sugerir não é nada, mas me causa menos solidão – e talvez sirva a mais alguém pelo mesmo motivo - quando o assunto é tão assustador. Talvez o livro não seja dos mais simples, mas também não é nenhum horror por difícil de ler ou pelo autor, famoso por seus textos que, para muitos, pode até parecer confuso. O livro é Força de Lei de Jacques Derrida (Martins Fontes, 2007). Trata-se de uma conferência que ele deu nos EUA em 1989 e que há pouco foi traduzida no Brasil. Nela ele analisa a relação entre violência e justiça, entre direito e violência. Justifica que a mesma violência que gera o direito gera a justiça. Que a violência é a mesma “força de lei” que age tanto para o bem quanto para o mal. Ninguém sabe de onde ela vem. Todo mundo pode recorrer à teoria de Thomas Hobbes, outro filósofo que desde o século XVII orienta as tentativas de entender o que é o Estado e qual a sua relação com a violência, apelando à idéia de uma natureza do homem. Cada um tenta explicar o mistério como pode. Mas Derrida coloca que a força de lei é uma espécie de fundamento místico da autoridade, pois ninguém sabe de onde ela vem. Tendo-a na mão, faz-se o que se quiser. O que controlaria isto? O direito? Mas como, se o próprio direito na verdade se instaura com a mesma força que é em si mesma violência? Inclusive quando alguém faz uma “revolução” é a mesma força que está a agir. O poder da polícia em nossa sociedade é a manifestação mais clara do que significa este poder que é, ao mesmo tempo, violência. Quando o exército faz o que fez, está claro que a diferença delicada entre violência e poder extinguiu-se completamente. A história mostra a sua face de Górgona. Estamos petrificados.
Eu continuo com a mesma idéia. Continuo crendo que é preciso defender a ética. Quando vejo fotos do José Dirceu e outros cretinos nas colunas sociais, ou palestrando (em empresas e universidades) como se fossem pessoas de bem, penso que este mundo não cuida de fazer distinções necessárias à sobrevivência. Não é moralização (o cínico pode ser o primeiro a levantar esta bandeira), mas questão de sobrevivência. Que mundo temos pela frente?
Se a autoridade não tem ética, os que devem obedecer estão perdidos. Talvez a ética seja a mudança, que só pode operar como uma espécie de micro-revolução urgente em cada um e junto dos outros. É só uma idéia como bandeira branca geral.
Para quem viu Estamira (tem uma artigo meu numa das últimas revistas Cult) e o entendeu como um retrato do Brasil e do mundo, há mais uma pincelada forte para concluir a imagem do terror que Estamira mostra muito bem, terror a que estamos todos submetidos. Os rapazes mortos na ação que eliminou de vez a diferença entre bandido e lei nesta semana no Rio, foram lançados no lixão de Gramacho onde Estamira trabalha tentando recolher os restos da cultura.
Somos o que nos tornamos... Cada um no lugar que ocupa, mas cada um mostra quem o outro é. Retratos de nós mesmos não nos faltam quando olhamos para o lado.

Pra seguir pensando junto."

Fonte: Post publicado no site Pink Punk, autoria de Marcia Tiburi.

2 comentários:

wecsley disse...

Muitas vezes vemos a justiça se omitir em relação a perseguições políticas e a corrupção e deixar a violência acontecer,a violência controlada e dissimulada pelo exército com satélite que diz agir sistematicamente sobre nossas cabeças sem explicar a causa política ou social. Com que interesses podemos confiar numa justiça da qual muitos acreditam vir do céu, que não é instituida de maneira positiva, nem discutida com total liberdade nas instituições públicas?

estupido disse...

eu acho que seria melhor ler o texto de derrida, que vai bastante além desta concepção apresentada pela autora. Ou talvez não vá tão longe, não nos podemos esquecer que a autora está a fazer uma leitura de outro texto, mas ao incluir-se nessa leitura há sempre uma percaemrelação ao texto original. Mas também não nos podemos esquecer que derrida faz uma leitura de pascal e de benjamin no texto em causa. O que eu presinto como endo o aspecto central do texto de derrida é a forma como ele insinua que é a inclusão do conceito de justiçana concepção de lei que impossibilita o alcance da primeira, a lei ao afirmar que persegue a justiça torna-e numa negação da possibilidade de alguma vez a alcançar-mos