segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Indicador revela diagnóstico do analfabetismo no Brasil

Em entrevista ao Todos Pela Educação, a diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, fala dos resultados de 2007 do Inaf - Indicador de Alfabetismo Funcional, contextualizando com o processo de universalização do Ensino Fundamental no País. Em sua análise, um dos grandes desafios do Brasil é alcançar a qualidade do ensino e ao mesmo tempo garantir o acesso e a permanência dos alunos nas escolas.

Realizado desde 2001, o Inaf traz considerações relevantes sobre o problema do analfabetismo no País. O indicador é feito a partir de quatro níveis de alfabetismo: analfabetos absolutos, alfabetismo rudimentar, alfabetismo básico e alfabetismo pleno, sendo considerados analfabetos funcionais as pessoas que se encontram nos dois primeiros níveis. Em sua última edição, em 2007, o Inaf revela que entre a população brasileira de 15 a 64, 32% são analfabetos funcionais.

Leia abaixo a entrevista de Ana Lima sobre o Inaf:

Todos Pela Educação: Qual a importância do Inaf no diagnóstico da qualidade da Educação no País?

Ana Lúcia Lima: Diferentemente das demais avaliações do Ministério da Educação, como o Saeb, a Prova Brasil, o Enem e outras, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) não é uma avaliação escolar, ou seja, não avalia somente as habilidades e competências dos que frequentam a escola. O Inaf mede a condição de alfabetismo da população brasileira com base em uma amostra representativa da população entre 15 e 64 anos, residente nas várias regiões do país, independentemente de estarem ou não frequentando a escola. Neste sentido o estudo complementa o diagnóstico sobre a qualidade da educação no Brasil traçando um quadro mais geral, que permite evidenciar as relações entre escolaridade e alfabetismo, assim como determinar outros fatores que afetam positiva ou negativamente o nível de letramento e numeramento de nossa população.

TPE: Quais os critérios utilizados para definir uma pessoa como analfabeta funcional?

ALM: O Inaf define quatro níveis de alfabetismo: o analfabeto propriamente dito e os alfabetizados em nível rudimentar, básico e pleno. Cada um destes níveis é determinado em função do domínio que cada pessoa tem no uso de suas habilidades de leitura, escrita e matemática para lidar com situações do dia-a-dia de uma sociedade letrada.
De maneira geral, podemos considerar como "analfabetos funcionais" aquelas pessoas cujas habilidades são claramente insuficientes para desempenhar tarefas elementares. Estas graves limitações são identificadas tanto entre os analfabetos absolutos (7% dos adultos entre 15 e 64 anos, segundo o Inaf 2007), quanto entre os alfabetizados em nível rudimentar (infelizmente 25% deste mesmo segmento).

TPE: Os dados do Inaf 2007 demonstram que o percentual de analfabetos funcionais vem caindo desde 2001, quando começou a ser realizada a pesquisa, e que o percentual de “analfabetos absolutos” caiu quase pela metade. A que se deve essa mudança?

ALM: A redução do número de analfabetos absolutos vem sendo apurada também por outras fontes, inclusive no Censo do IBGE. Esta tendência está certamente relacionada à universalização do acesso aos anos iniciais da escola, atingida na década de 90. A necessidade de ir além da simples classificação das pessoas como analfabetas ou alfabetizadas foi o que motivou o Instituto Paulo Montenegro a desenvolver e realizar o INAF. O objetivo maior é conhecer quais as reais habilidades daqueles que são classificados como alfabetizados. Introduzindo o conceito de alfabetização funcional, podemos dizer que, após 7 anos de existência do indicador, o assunto passou efetivamente a ocupar um lugar na agenda das discussões sobre educação no país.

TPE: Observando a evolução do Inaf entre 2001 e 2007 percebe-se que a maior parte da população está concentrada nos níveis de alfabetização rudimentar e básica. Além disso, 27% das pessoas que tem escolaridade entre a 5ª e a 8ª série do Ensino Fundamental são analfabetos funcionais. Como explicar esses números?

ALM: Para entender essa realidade é preciso levar em conta que nessa amostra estão pessoas mais velhas, com escolaridade entre 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental e outras mais jovens, com a mesma escolaridade, que ingressaram na escola em meio ao processo de universalização do Ensino Fundamental. Estas últimas, em sua maioria, pertencem a segmentos sociais mais frágeis, cujos pais têm baixa escolaridade, sem hábitos de leitura. Para estes alunos, a escola deveria ser cada vez mais forte para compensar essas fragilidades. Mas o que percebemos é que o sistema de ensino e as próprias escolas não estavam preparados para receber esses alunos e garantir o seu aprendizado.

TPE: Ao mesmo tempo, vemos que o número de pessoas plenamente alfabetizadas, entre aqueles que têm escolaridade entre 5ª e 8ª série do Ensino Fundamental, caiu de 23% para 16% entre 2001 e 2007. Esse é um alerta?

ALM: Essa diminuição entre o número de pessoas plenamente alfabetizadas alerta para baixa qualidade do ensino. Por isso, as medidas a serem tomadas devem por um lado melhorar a qualidade do ensino e, por outro, também garantir o acesso e permanência desses alunos na escola. Esse é um processo que precisa ser combatido com ações de médio e longo prazo. Para alcançar bons resultados, a implementação de políticas não podem ter caráter eleitoreiro. Por isso, acredito ser necessário que sejam construídas políticas de estado com o envolvimento de toda a população.

Fonte: Todos pela Educação

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