quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Projetos de leitura crescem no País

Eles sabem que metade da população adulta é analfabeta funcional, que os brasileiros não leem nem dois livros por ano e que os estudantes estão entre os piores do mundo em testes de leitura. Mesmo assim, contrariando uma realidade preocupante, uma série de pessoas sozinhas, organizações não-governamentais e mesmo municípios e Estados estão multiplicando projetos de incentivo à leitura pelo País. Dados do Programa Nacional do Livro e Leitura (PNLL), dos Ministérios da Cultura e da Educação, mostram que o número de projetos cadastrados saltou de 162 em 2006 para quase 600 em 2008.

A última edição do Prêmio Vivaleitura, por exemplo, teve 1.899 projetos inscritos de todos os Estados, tanto das capitais quanto dos pequenos municípios do interior do País. São bibliotecas em casas de palafita na região amazônica, nas garagens da periferia de grandes cidades, no lombo de animais, nos carrinhos de catadores de papel, no porta-malas de carros, em ônibus adaptados. Vizinhos que se unem e criam grupos de leitura, professores que criam modelos pedagógicos para serem usados extraclasse, redes de ensino que reformularam seus programas.

"A principal característica deles é que boa parte envolve um alto grau de voluntariedade e criatividade", afirma Jefferson Assumpção, coordenador-geral de Livro e Leitura do Ministério da Cultura. "Apesar de haver muitos geridos por governos e empresas, geralmente os projetos são criados por pessoas que se sentem modificadas pela leitura, que desenvolvem uma profunda relação com os livros e que querem levar isso para os outros", diz.

Em Alto Alegre do Pindaré, uma cidade maranhense com menos de 30 mil habitantes, um jegue circula pelas ruas de terra carregando bolsas cheias de livros. Senhoras, crianças e adultos formam fila para emprestar até dois exemplares por vez, todas as semanas. Em Florianópolis, uma moradora do bairro da Lagoa da Conceição construiu uma biblioteca dentro de um barco para que pudesse emprestar livros para várias comunidades, inclusive as de difícil acesso - o projeto hoje é coordenado por uma ONG chamada Sociedade Amantes da Leitura.

"O essencial em um projeto é possibilitar que a biblioteca saia do prédio fechado e chegue até as pessoas", diz Lourdes Atiê, coordenadora pedagógica do Prêmio Vivaleitura, uma iniciativa criada há três anos pelos Ministérios da Educação, da Cultura e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para Educação, Ciência e Cultura (OEI), com patrocínio da Fundação Santillana. "Depois disso, precisam pensar não apenas em distribuir os livros, mas em ajudar para formar um leitor autônomo. A universidade precisa dialogar com a comunidade, a escola precisa atrair o interesse do seu aluno e a sociedade deve ajudar a ter canais entre pessoas e livros."

EM VEZ DE LIXO, LIVROS

"Ler e brincar, é só começar", reza o lema de um projeto na Liberdade, região central de São Paulo. A cada duas semanas, sempre às terças-feiras, uma carroça de catadores de lixo sai da sede da Associação Maria Flos Carmeli, na Rua do Glicério, e estaciona no pátio da Igreja Nossa Senhora da Paz, a poucos metros dali. Em vez de lixo, a carroça fica carregada de livros. Poucos minutos depois, está rodeada de crianças, na maioria alunos da escola municipal que funciona ali pertinho, atentas às histórias contadas pelo jovem Fábio Pereira de Abreu, de 29 anos.

E quem é esse sujeito, capaz de cativar as crianças com livros? Paulistano da Vila Brasilândia, zona norte da capital, ele já tinha trabalhado como contínuo, auxiliar de expedição e em uma lan house, até conhecer a associação. Acabou contratado como monitor de informática. Há um ano, foi convidado pela coordenadora pedagógica da ONG, Silvana do Nascimento, para fazer um teste de mediação de leitura. Ele nem sabia muito bem o que era isso, mas já adorava crianças. Sua experiência anterior em algo parecido eram as peças teatrais que ele encenava com os colegas em uma igreja na Vila Brasilândia, quando adolescente.

Fábio foi aprovado. "Sou fascinado por criança", não se cansa de afirmar. "É preciso ter um cuidado especial para ler para elas. Comecei utilizando fantoche, depois fui criando fantasias que tinham a ver com as histórias." Foi assim quando leu A Casa Sonolenta, de Audrey Wood, sobre um lugar em que todos viviam dormindo. "Coloquei pijama e pantufas", lembra. Foi um sucesso.

Depois disso, a cada história, inventava uma fantasia. Vestiu-se até de galinha. "Ler para as crianças é o que mais gosto de fazer", conta. "Quando estou fantasiado, elas ficam em dúvida se sou eu mesmo", diz. Ao se preparar para contar Os Três Lobinhos e o Porco Mau, de Eugene Trivizas, no dia 2 de dezembro, resolveu inventar uma espécie de personagem-coringa. "Transformei-me no ?Palhaço das Histórias?", diz. Ele pretende repetir o personagem em outras sessões.

A carreira de contador de histórias mudou a rotina de Fábio. Ele, que não tinha o hábito da leitura, agora devora oito obras por semana - todas infantis. "Não sabia nada de literatura infantil", revela. "No começo, a coordenadora pedagógica da associação era quem indicava os títulos que devia ler." Tomou tanto gosto pela coisa que acabou entrando no curso de Pedagogia, na Uninove.

E de onde veio a ideia de levar os livros nessas carroças? "As crianças que atendemos aqui na associação (cerca de 90, de 3 a 6 anos) são, em sua maioria, filhos de catadores de material reciclável", explica a coordenadora pedagógica, Silvana do Nascimento. Quem leva a carroça até o pátio, a cada 15 dias, é um carroceiro profissional, pai de algumas das crianças atendidas.

O acervo da ONG é formado, principalmente, por livros recebidos em doação. São 1,8 mil títulos. A cada evento, a carroça leva 400 deles. Os livros podem ser emprestados pela criançada - em média, são retirados 82 por mês -, que se compromete a devolver na quinzena seguinte. "As crianças cuidam bem dos livros", se orgulha Fábio. "Até hoje, perdemos apenas dois exemplares."

NÚMEROS

4,7 livros
é a média de leitura anual da população brasileira, incluindo a Bíblia e livros didáticos e técnicos, segundo pesquisa feita no ano
passado com adolescentes e adultos pelo Instituto Pró-Livro

1,3 livro
é o número de obras que os brasileiros leem por ano por vontade própria, sem ser obrigados por escolas ou universidades

1,1 livro
é o número de obras que as pessoas compram por ano

39% dos leitores
brasileiros têm até 17 anos, ou seja, estão em idade escolar e leem livros indicados pela escola; 14% têm entre 18 e 24 anos, idade
compatível com ensino superior

Fonte: O Estadão de Hoje.

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