sábado, 22 de março de 2008

Educação para a cidadania e a paz

Esse texto para a reflexão de hoje é da Professora Celma Tavares, e traz uma discussão fundamental para nós educadores que são as questões de educar para a cidadania e para a paz.

Há dois anos fiz uma curso de agentes da paz e desde então trago sempre para a discussãoo e reflexão esse tema.

Inclusive faço uma dinâmica da paz, sempre que abro uma reunião ou uma palestra.
Peço as pessoas para fecharem os olhos e se concentrarem apenas um minuto.
E depois, peço para que cada um a seu tempo, falem a palavra paz...

Muito mais do que uma simples palavra, a paz deve ser ensinada, cultuada, lembrada, não somente quando a violência nos assalta ou quando um caso alardeia na sociedade.

Ensinar para paz nos faz sermos construtores,cidadãos conscientes, profissionais engajados para lutar por um futuro mais digno.

Mas, vamos ao texto da professora Celma Tavares.Segue uma bibliografia para quem desejar aprofundar o assunto.

EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA E UMA CULTURA DE PAZ
Celma Tavares

Falar em Educação para Cidadania e uma Cultura de Paz significa utilizar pedagogicamente conteúdos relacionados ao exercício dos direitos e deveres, bem como valores relacionados à tolerância, ao respeito à diversidade e à prática dos direitos humanos. Essa diretriz já estava contemplada, por exemplo, no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, ratificado pelo Brasil na década de 90, que em seu artigo 13 (inciso 1) coloca: “a educação deve orientar-se para o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade, e deve fortalecer o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais”.

Sendo assim, é importante situar duas questões. Primeiro, que a consciência universal dos direitos humanos é cada vez mais forte nos países democráticos, entretanto eles continuam sendo violados. Segundo, que o trabalho de sensibilização e introjeção dos valores para uma cultura de paz e para o compromisso com a promoção dos direitos humanos passa obrigatoriamente pela educação nos mais variados âmbitos, mas fundamentalmente a partir da escola.

No campo da educação, é preciso estar atento para o papel e o desempenho nas funções da escola. Neste ponto, a pedagoga Vera Candau assinala que “a escola, que deveria exercer um papel de humanização a partir da aquisição de conhecimentos e de valores para a conquista do exercício pleno da cidadania, tem muitas vezes favorecido a manutenção do status quo e refletido as desigualdades da sociedade”.

Por isso mesmo, ela ressalta que é necessário “a construção de uma escola que forma crianças e jovens construtores ativos da sociedade, capazes de viver no dia-a-dia, nos distintos espaços sociais, incluída a escola, uma cidadania consciente, crítica e militante”. E que “isto exige uma prática educativa participativa, dialógica e democrática, que supere a cultura profundamente autoritária presente em todas as relações humanas e, em especial, na escola”.

Este tipo de análise possibilita o entendimento de que a escola deve exercer um papel de humanização a partir da socialização e construção do conhecimento, aliado aos valores necessários à conquista do exercício da cidadania. Especialmente ao se trabalhar a educação, o exercício da cidadania e a vivência da democracia na busca de uma intervenção concreta na questão social e cultural.

Mas como deve ser a Educação para Cidadania e para uma Cultura de Paz a partir da escola? De acordo com Letícia Olguin, deve incluir metodologias que: estimulem a participação dos estudantes; possibilitem a contradição; abram janelas para o mundo; procurem sistematicamente o desenvolvimento do pensamento; fortaleçam os vínculos do estudante com o grupo de pares (com a instituição, a comunidade, com seu país); sejam globalizadoras e sejam realistas.

Deve ser também uma educação que possibilite o desenvolvimento do protagonismo juvenil. Porque é através dele que os jovens podem se sentir incluídos no processo das transformações sociais e, mais ainda, podem se sentir promotores da cultura de paz. Pois é ao explorar o papel de protragonista no jovem que se constrói as condições para que ele exercite de forma criativa e crítica seu entusiasmo para a ação e se descubra capaz de intervir, de colaborar e de explorar e canalizar suas pontencialidades.

Educar para a Cidadania e para uma Cultura de Paz, a partir do que propõe Vera Candau “exige educar para a ação político-social que não pode ser somente individual” e “exige o compromisso com a construção de uma sociedade que tenha por base a afirmação da vida e da dignidade”. Assim, qualquer proposta de educação nesta área deve conter três aspectos básicos, apresentados no seu livro Tecendo a Cidadania:

a) uma pedagogia da indignação – que pretende formar seres capazes de se indignar e de se escandalizar diante de toda forma de violência e humilhação. Tal pedagogia supõe que sejamos conscientes de que estas violações são historicamente construídas e que tenhamos a valentia de perguntar-nos por suas causas, superando a insensibilidade, passividade e impotência diante delas e promovendo a solidariedade;

b) uma pedagogia do assombro/admiração – que nos leva a perceber dentro e fora do âmbito escolar buscas concretas de preservação e promoção da vida, revelando a capacidade de resistência e criatividade das pessoas;

c) uma pedagogia de convicções firmes – que se expressa num modo de trabalhar a dimensão ética da educação. Explorando valores como solidariedade, justiça, liberdade, criticidade.

Além desses aspectos é ainda preciso articular quatro dimensões básicas, que devem ser trabalhadas conjuntamente, como se expõe no mesmo livro: ver, saber, celebrar e comprometer-se. O ver engloba a perspectiva da sensibilização e conscientização da realidade, ampliando cada vez mais o olhar sobre a vida cotidiana. O saber sobre os direitos humanos deve ser socialmente construído e emergir da prática cotidiana. O celebrar coloca a educação como uma prática que provoca prazer, alegria e emoção. E o comprometer-se é o descobrir-se como cidadão e promover todos os valores que afirmam e garantem a dignidade humana.

Educar para Cidadania é, neste contexto, como coloca a pedagoga Aida Monteiro, “entender que direitos humanos e cidadania significam prática de vida em todas as instâncias de convívio social dos indivíduos”. Nesse entendimento, continua ela, “a educação é vista como um dos principais instrumentos de formação da cidadania, no sentido do pleno reconhecimento dos direitos e deveres do cidadão, enquanto sujeito responsável pelo projeto de sociedade no qual está inserido. Enquanto instrumento social básico, a educação possibilita ao indivíduo a transposição da marginalidade para a materialidade da cidadania”.

E neste sentido a escola é um espaço privilegiado no processo de formação ao trabalhar com o conhecimento, valores, atitudes. O desafio está, como defende o sacerdote jesuíta Luiz Peréz Aguirre, “em aprender a pensar com liberdade e nos convencer de que temos o direito de pensar de forma diferente dos demais e que esse direito não nos autoriza a desprezar a quem pensa diferente de nós. O valiosos está nessa diferença que nos fortalece, complementa e enriquece como sociedade e como povo”.

A Educação para Cidadania e uma Cultura de Paz possibilita, portanto, a sensibilização, a percepção e a reflexão, que possam provocar a conscientização e a mudança no indivíduo.

Referências Bibliográficas:

AGUIRRE, Luiz Peréz. Educar para os direitos humanos: o grande desafio contemporâneo. Texto reproduzido pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos.
CANDAU, Vera ...[et. al.] Tecendo a Cidadania. Petrópolis, Vozes, 1995.
MONTEIRO, Aida. Educação para Cidadania: solução ou sonho impossível? In: LERNER, Júlio (organizador). Cidadania Verso e Reverso. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1997/1998.
OLGUIN, Letícia. Enfoques Metodológicos no Ensino e Aprendizagem dos Direitos Humanos. Texto reproduzido pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos.

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