terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A implementação da lei 10.639/03

A Implementação da Lei 10.639/03

Partindo do pressuposto de Bordieu que a escola é espaço da perpetuação das desigualdades sociais, levanto algumas questões sobre a implementação da lei 10.639/03 no currículo escolar, que obriga o estudo da História da África e da História e Cultura Afro-brasileira.

Fui desde 2005 até 2007 a coordenadora do Núcleo de Relações Étnicos Raciais da Secretaria de Educação de Japeri, e com base em estudos e observações fui elaborando algumas questões, que considero importantes na implementação da lei federal.

Sou adepta da linha de pensamento que é a partir da reflexão que vamos construindo nossa prática educativa. Então vamos a algumas reflexões:

Não há dúvida nenhuma a importância do Estudo do Continente Africano nos currículos da escola básica. Este continente desconhecido na verdade é uma das bases da nossa cultura nacional, da nossa língua, da nossa história.

É inegável que precisamos ir além da escravidão nas aulas de História do Brasil. Afinal, todos sabemos que a história do negro que é contada nos livros didáticos começa e termina na escravidão.

Mas, a educação formal é suficiente para a superação da exclusão sócio-racial?O ensino favorece aos alunos negros? e os professores negros?

Os professores estão preparados para a implementação da lei? tem formação suficiente sobre o tema? E como isso está sendo repassado para os alunos?

E se o professor achar desnecessário a lei e considerar que ela não devia existir, quem vai fazer a lei ser cumprida em sua sala de aula?

Como o professor vai ensinar aos alunos a não se sentirem discriminados, se algumas vezes, os próprios professores são alvos da discriminação ou instrumentos dela?

A minha maior preocupação com relação a implementação é não folclorizarem a lei, tornando-a apenas mais um conteúdo e não a séria discussão sobre racismo e preconceito no Brasil.

Já que a implementação da lei ainda é de responsabilidade total dos professores que contam apenas com seus esforços pessoais para fazerem a lei tornar-se viva.

Mesmo sendo uma reivindicação histórica justa a lei encontra algumas resistências:

Faltas de metas governamentais para a implementação da lei nas escolas;qualificação profissional;reformulação nas grades de graduação e licenciaturas.

Tornar obrigatoriedade foi para mim uma atitude corretíssima.Mas e daí?

É preciso mais, muito mais.

Senão, a marca do preconceito e da discriminação irão continuar.

Precisamos encontrar uma maneira coletiva de romper com o engessamento das relações étnicas no Brasil.

E a meu ver a escola pode ser o lugar privilegiado desta discussão.

Vamos refletir sobre isso.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Resistir é preciso

A escola é o lugar do saber.Então porque o aluno não aprende?
Porque o aluno se nega a delícia que é a aquisição do conhecimento?
Muitos professores sem prática para a reflexão preferem disseminar a fala dominante de colocar a culpa da não aprendizagem nas costas da família, da linguagem precária do aluno e do meio social onde ele vive.
O aluno não quer aprender e ponto, isso é o que mais se ouve nas salas dos professores.
Mas será que é assim mesmo que funciona?
Observando os alunos da escola em que trabalho, uma escola de periferia da Baixada Fluminense, me certifico que os alunos não aprendem não porque não querem, mas sim, porque não podem.
Esse não aprender não causa só a angustia nos professores, mas os alunos também são E acredito que a realidade por mim vivida é reflexo de muitas outras realidades vividas.Os alunos não sabem, porque a escola não os ensinou, essa é a verdade.
È extremamente polêmico este tipo de afirmação.
Porque o professor se nega a critica, a reflexão, a auto formação, é fatalmente continuará sendo um dos principais contribuintes dessa triste realidade: A culpa da não aprendizagem está sempre fora da escola, e não dentro dela.
O aluno não pode aprender o que não sabe. É preciso ter requisitos básicos por exemplo, para aprender raiz quadrada. Mas como aprender raiz quadrada se o aluno chega a 6 º ano sem saber fazer as quatro operações matemáticas?Se não sabe interpretar um pequeno texto? Sem saber se expressar oralmente?
Como resposta a isso entupimos as classes de aceleração, de reforço, e as classes especiais.
Essas soluções são meros paliativos para uma doença que parece não ter remédio.
O analfabetismo funcional crônico que invadiu nossas salas, que deveriam ser lugares privilegiados para o aprender.
Mas a verdade, é que nossos alunos tem inúmeras dificuldades para aprender, porque a escola lhes negou essa oportunidade. Como garantir que nosso aluno tenha visão de mundo se a própria escola que não tem visão de mundo?
E cada vez mais vai-se aumentando a complexidade dos conteúdos, e com isso formando a inevitável bola de neve. Quanto mesmo o aluno sabe, menos ele sabe.
E com isso vai surgindo a triste realidade: Reprovação, evasão ou a aprovação automática, a escolher.
Dessa dificuldade de aprender nasce o desinteresse, a indisciplina, o descaso que tanto nos incomoda como professores.
Mas é preciso resistir.
Os modos de resistência para assegurar a aprendizagem estão dentro da escola mesmo: projetos, respeito a realidade do aluno, compreensão da sua linguagem e do seu meio, aulas dialógicas, aulas passeio, assuntos estes, que geralmente são discutidos nas reuniões pedagógicas, mas nunca colocadas em prática pelo professor que prefere o velho ao novo, com medo de errar.
Mas é preciso refletir se não foi esse medo da mudança, essa resistência muda ao novo que nos fez chegar onde estamos?
Para realizar a resistência, é preciso muito pouco: Basta o compromisso ético de fazer valer o pressuposto básica da escola: Fazer com que todos os alunos aprendam.
E boa vontade. De dirigentes municipais, estaduais, dos diretores, coordenadores e principalmente dos professores, que são a ponta desse processo.
Enquanto isso a escola publica, que tornou-se chata, burra, cristalizada e anti democrática espera o aluno pedagogicamente acabado, pronto para o conhecimento, sendo incapaz de reconhecer e seu próprio produto:Alunos que não fazem os deveres, alunos que não sabem ler e escrever, alunos que não sabem que as palavras se iniciam no canto direito da margem, alunos que só descobrem que estão numa escola quando se vêem diante de uma prova.
Aos professores conscientes de seu papel nessa mudança, meus respeitos e um singelo apelo que continuem resistindo para que todos os nossos alunos tenham o direito de aprender.