terça-feira, 16 de setembro de 2008

Este artigo do professor e escritor Gustavo Bernardo foi publicado no suplemento Prosa & Verso do jornal O Globo, no último sábado, dia 13 de setembro.

A ficção da tese

“A literatura é mais importante do que a música, a pintura, o teatro e as demais artes.” É mesmo? Dito assim, parece absurdo — e é. No entanto, trata-se de uma das premissas da escola. A condição de arte eminentemente verbal empresta à literatura prioridade no currículo, na carga horária, nos exames, no corpo docente. Essa prioridade, todavia, nem sempre faz bem à literatura.

Para transformá-la em uma disciplina “como as outras”, ensina-se literatura para se ensinar ou história ou língua ou cultura ou até mesmo patriotismo, escamoteando-se o seu caráter artístico.

“A literatura é apenas um objeto de estudo.” Bem, talvez. Dito assim, já não parece tão absurdo quanto a sentença anterior. Se a literatura é uma disciplina como as outras, então ela é um objeto de estudo como os outros. No entanto, se a literatura é arte, parente muito próxima dos mitos e das religiões, então ela é menos um objeto de estudo do que uma morada existencial. De modo bem diverso das demais disciplinas, a literatura pode se tornar apaixonante tanto à razão quanto à emoção de uma pessoa. Por quê? Porque ela deliberadamente suspende a realidade a um nível ao mesmo tempo íntimo e superior — superior porque fruto assumido da invenção humana. Nessa perspectiva, uma reflexão sobre a literatura que preserve a paixão original exige menos fazer teoria da literatura do que buscar a teoria na literatura.

Devo abdicar de controlar a literatura com minhas categorias lingüísticas ou históricas para deixar emergir seu enigma sem resolvêlo — sem destruí-lo. “Quantos de nós começamos a fazer Letras, a estudar literatura, porque gostávamos de ler e sobretudo de escrever?” Puxa, precisava lembrar disso? Dirigida aos profissionais da literatura na escola, essa pergunta não é absurda, mas sim incômoda. Porque a sua resposta é: muitos, quiçá a maioria. E porque ela gera uma outra pergunta: quantos de nós paramos de escrever já na faculdade ou pouco depois, quando começamos a dar aula? A resposta à segunda pergunta é igual: muitos, quiçá a maioria. Isso acontece, talvez, porque transformamos o objeto da nossa paixão em apenas um objeto de estudo, supondo que assim dominaremos seu enigma. O preço a pagar é alto: a literatura deixa de ser arte para nós e nossos alunos e se torna uma “matéria” (na melhor das hipóteses, chata).

No entanto, há resistências.

Há professores e escolas e universidades que não esquecem que a literatura é antes de tudo arte: desafio e enigma, paixão e ilusão. Isso acontece em vários níveis — por exemplo, quando uma pós-graduação em literatura aceita um trabalho de ficção como tese. Essa proposta, como demonstram os finalistas do Jabuti e do Portugal Telecom, costuma ser bem sucedida, gerando trabalhos de ficção ousados e conseqüentes porque frutos do diálogo tenso com a reflexão acadêmica. Isso se chama: produção de conhecimento e de cultura.

Mas há quem não concorde — talvez alguns daqueles que se esqueceram do porquê quiseram estudar literatura.

Argumentam que um trabalho de ficção não é um trabalho científico, como se todo trabalho científico não fosse sempre um trabalho de... ficção. A hipótese científica é sempre uma suposição, um “como se” fosse para ver se pode ser assim mesmo. A estrutura discursiva da literatura stricto sensu difere da estrutura de um tratado de Física, mas o princípio do “como se” anima ambos os discursos.

Por isso, mesmo em termos de teoria do conhecimento, mesmo em termos epistemológicos, não procede a resistência a trabalhos de ficção como tese de pósgraduação em literatura.Não procede, mas se explica: explica-se pela dificuldade óbvia, reconheço, de orientar e avaliar um trabalho de ficção, quando os critérios se tornam bem menos seguros. Todavia, há critérios: os mesmos que utilizamos para distinguir se uma obra literária é menor ou maior, se é obra-prima ou não. Ainda há outra explicação, que reluto em escrever mas escrevo: ressentimento.

Se abandonei minha paixão no início do caminho para conquistar minha posição acadêmica, como esse fedelho que não deu todas as aulas que já dei e não corrigiu todas as provas que já corrigise atreve a fazer da sua tese um romance, enquanto eu larguei meus poemas em passado remoto? Puxa, também não precisava ofender. Colegas, calma, não se ofendam tão rápido; eu sei que essa carapuça não serve a todas as cabeças, há tantos outros motivos para resistir à arte na academia. Mas nós sabemos que ela serve sim em algumas cabeças: aquelas que justificam o ditado popular nefasto que nos persegue, até porque não de todo falso: “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Por isso, há que continuar fazendo — fazendo arte! — para dar o melhor exemplo a nossos alunos; da mesma forma, há que continuar estimulando quem faz — arte! — para recuperar não apenas para a literatura, mas também para o magistério, a sua condição original de... arte.

Seminário Escola da Vila

Repassando e- mail recebido:

Está chegando mais um momento de encontro e atualização! O Seminário Itinerante da Escola da Vila, que acontecerá no Rio de Janeiro, será um espaço de aprendizagem, reflexão e troca mútua. A programação completa está disponível em nosso site www.vila.org.br.

Os cursos oferecidos são:

C1 - A produção de material didático e a qualidade da intervenção docente.
Educadora responsável: Adriana Reali.

C2 - Entrar na escola e ser da escola: entre adaptação e a constituição do grupo classe.
Educadora responsável: Daniela Munerato.

C3 - Formar leitores na escola.
Educadora responsável: Angela Kim.

C4 - A organização da rotina no Ensino Fundamental I.
Educadora responsável: Claudia Tenório.

Evento exclusivo para Escolas ZDP
C5 - A informação como instrumento de Gestão Escolar.
Educadoras responsáveis pela atividade: Ana Luiza Amaral e Ana Maria Cerqueira.

Informações:
Data: 04 de outubro de 2008
Horário: 8h às 17h
Local: Colégio Andrew´s
Valor: R$198,00 à vista ou 2 parcelas de R$105,00 ou 3 parcelas de R$72,00 (Para Escolas ZDP 1 bolsa integral + 40% de desconto nas demais inscrições).
Inscrições e mais informações: www.vila.org.br, clique em agenda.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Carta do futuro 2070



É sempre muito sério falar de meio ambiente e de economia de água.

O assunto nunca é demais e se torna mais sério ainda quando somos professores,porque considero como dever e obrigação de qualquer mestre,de qualquer disciplina, seja qual for o segmento,garantir aos alunos,informações necessárias para a preservação do planeta,e subsídios intelectuais para a conservação de nosso maior recurso natural que é a água.

Quando eu vi esse vídeo,não pude me abster de democratizá-lo.

A escola sempre será o lugar da aprendizagem coletiva, da garantia da melhoria do futuro,embora,ás vezes, nos esqueçamos disso.

É na escola que há os profissionais disponíveis para o aprendizado, é na escola que as questões polêmicas da sociedade são colocadas em xeque.

Ou não?

Precisamos garantir que nossos alunos aprendam a preservar o meio ambiente, mas principalmente que eles adquiram consciência ambiental ampla, geral e irrestrita.

Agora, se enquanto Coordenadores,trabalhamos com uma equipe que não é consciente, não há como o conhecimento se democratizar, não há o que trocar....

Podemos fazer diferente?

Sem dúvida. Através da formação continuada.

Ou seja, as discussões devem ser levadas para a escola, e estar presente nas discussões diárias,quinzenais,mensais,,nos murais,nas salas de aula, nos boletins internos, no mural da sala dos professores, e principalmente nas discussões da equipe.

A questão ambiental demanda sensibilização.

Porque quanto mais preocupados e conectados com as questões ambientais,mais estaremos atentos à nossa condição humana.

Use o vídeo como base para discussão, utilize músicas, memória, textos, para sensibilizar sua equipe, sem alarmismos baratos,mas com convicção que precisamos preservar nosso planeta e economizar a agua,esse bem tão precioso..

Aposto que você vai fazer um excelente trabalho. Não deixe de me relatar sua experiência.

A troca de experiências é algo maravilhoso! E então? Vamos democratizar nossas angústias,nossas dúvidas,nossos sucessos,nossos anseios?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Umberto Eco, sobre Bibliotecas

Este é um excerto de um texto de Umberto Eco, sempre provocatório e genial onde, com aguda ironia, nos caracteriza uma boa biblioteca. Podem achar excessivo mas eu ainda me lembro bem de que já foi assim e não há tanto tempo como isso e não era por não haver computadores...

a) Os catálogos devem estar divididos ao máximo: deve proceder-se com muito cuidado à separação do catálogo dos livros do catálogo das revistas, e à deste em relação àquele por temas, assim como à separação dos livros de aquisição recente dos livros de aquisição mais antiga. Se possível, a ortografia nos dois catálogos (antigos e recentes) deve ser diferente; (...)

b) Os temas devem ser decididos pelo bibliotecário. Os livros não devem incluir no cólofon nenhuma indicação referente aos temas nos quais deve ser catalogados.

c) As cotas devem ser intranscritíveis, e se possível em grande quantidade, de modo a que o leitor que preencher a ficha nunca tenha espaço para escrever a última denominação e a considere irrelevante, para que em seguida o funcionário lhe possa devolver a ficha para a preencher novamente.

d) O espaço de tempo decorrido entre o pedido e a entrega do livro deve ser muito longo.

e) Não se deve dar mais de um livro de cada vez.

f) Os livros entregues pelo funcionário por terem sido previamente requisitados, não podem ser levados para a sala de consulta, isto é, há que dividir a própria vida em dois aspectos fundamentais, um para a leitura e outro para a consulta. A biblioteca deve desencorajar a leitura cruzada de vários livros porque provoca estrabismo.

d) Deve existir, de preferência, uma ausência total de máquinas fotocopiadoras; no entanto, se houver alguma, o acesso a ela deve ser muito demorado e cansativo, os preços superiores aos da livraria e os limites de cópias reduzidos a não mais de duas ou três páginas.

h) O bibliotecário deve considerar o leitor como um inimigo, um vadio (senão estaria a trabalhar), um ladrão potencial.

i) Quase todo o pessoal deve ser afectado por limitações de ordem física. Trata-se de uma questão muito delicada, em relação à qual não pretendo criar nenhuma ironia. É um dever da sociedade dar possibilidades e saídas profissionais a todos os cidadãos, mesmo àqueles que não estiverem na força da idade ou no auge das suas condições físicas. Há bibliotecas (...) onde a máxima atenção é dispensada aos utentes deficientes: planos inclinados, casas de banho especializadas, ao ponto de tornarem perigosa a vida aos outros, que escorregam nos planos inclinados. (...)

j) O departamento consultivo deve ser inatingível.

k) O empréstimo de livros deve ser desencorajado.

l) O empréstimo de livros entre bibliotecas deve ser impossível e, em todo o caso, levar meses. O melhor, no entanto, é garantir a impossibilidade de conhecer aquilo que há nas outras bibliotecas.

m) Em consequência de tudo isto, os furtos devem ser facílimos.

n) Os horários devem coincidir absolutamente com os horários de trabalho, devendo preventivamente ser discutidos com os sindicatos: encerramento total aos Sábados, aos Domingos, à noite e à hora das refeições. O maior inimigo da biblioteca é o estudante-trabalhador; o seu maior amigo é Don Ferrante, alguém que tem a sua biblioteca pessoal, que não precisa, portanto, de ir à biblioteca e que, quando morre, a deixa em herança.

o) Não deve ser possível restaurar as forças dentro da biblioteca, de maneira nenhuma e, seja como for, também não deve ser possível restaurá-las fora da biblioteca sem primeiro se terem depositado todos os livros requisitados, a fim de terem de ser novamente requisitados depois de se ter tomado um café.

p) Não deve ser possível encontrar o mesmo livro no dia seguinte.

q) Não deve ser possível saber quem levou emprestado o livro que falta.

r) De preferência, nada de sanitários.

s) E para terminar coloquei também um requisito: o ideal seria que o utente não pudesse entrar na biblioteca; admitindo que entre , no usufruto caprichoso e antipático de um direito que lhe foi concedido com base nos princípios de oitenta e nove (revolução francesa) mas que, todavia, não foi ainda assimilado pela sensibilidade colectiva, em todo o caso não deve, nem deverá nunca, à excepção das rápidas travessias da sala de leitura, ter acesso aos penetrais das estantes.

Ler devia ser Proibido

"Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano."

Guiomar de Grammon

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Indicador revela diagnóstico do analfabetismo no Brasil

Em entrevista ao Todos Pela Educação, a diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, fala dos resultados de 2007 do Inaf - Indicador de Alfabetismo Funcional, contextualizando com o processo de universalização do Ensino Fundamental no País. Em sua análise, um dos grandes desafios do Brasil é alcançar a qualidade do ensino e ao mesmo tempo garantir o acesso e a permanência dos alunos nas escolas.

Realizado desde 2001, o Inaf traz considerações relevantes sobre o problema do analfabetismo no País. O indicador é feito a partir de quatro níveis de alfabetismo: analfabetos absolutos, alfabetismo rudimentar, alfabetismo básico e alfabetismo pleno, sendo considerados analfabetos funcionais as pessoas que se encontram nos dois primeiros níveis. Em sua última edição, em 2007, o Inaf revela que entre a população brasileira de 15 a 64, 32% são analfabetos funcionais.

Leia abaixo a entrevista de Ana Lima sobre o Inaf:

Todos Pela Educação: Qual a importância do Inaf no diagnóstico da qualidade da Educação no País?

Ana Lúcia Lima: Diferentemente das demais avaliações do Ministério da Educação, como o Saeb, a Prova Brasil, o Enem e outras, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) não é uma avaliação escolar, ou seja, não avalia somente as habilidades e competências dos que frequentam a escola. O Inaf mede a condição de alfabetismo da população brasileira com base em uma amostra representativa da população entre 15 e 64 anos, residente nas várias regiões do país, independentemente de estarem ou não frequentando a escola. Neste sentido o estudo complementa o diagnóstico sobre a qualidade da educação no Brasil traçando um quadro mais geral, que permite evidenciar as relações entre escolaridade e alfabetismo, assim como determinar outros fatores que afetam positiva ou negativamente o nível de letramento e numeramento de nossa população.

TPE: Quais os critérios utilizados para definir uma pessoa como analfabeta funcional?

ALM: O Inaf define quatro níveis de alfabetismo: o analfabeto propriamente dito e os alfabetizados em nível rudimentar, básico e pleno. Cada um destes níveis é determinado em função do domínio que cada pessoa tem no uso de suas habilidades de leitura, escrita e matemática para lidar com situações do dia-a-dia de uma sociedade letrada.
De maneira geral, podemos considerar como "analfabetos funcionais" aquelas pessoas cujas habilidades são claramente insuficientes para desempenhar tarefas elementares. Estas graves limitações são identificadas tanto entre os analfabetos absolutos (7% dos adultos entre 15 e 64 anos, segundo o Inaf 2007), quanto entre os alfabetizados em nível rudimentar (infelizmente 25% deste mesmo segmento).

TPE: Os dados do Inaf 2007 demonstram que o percentual de analfabetos funcionais vem caindo desde 2001, quando começou a ser realizada a pesquisa, e que o percentual de “analfabetos absolutos” caiu quase pela metade. A que se deve essa mudança?

ALM: A redução do número de analfabetos absolutos vem sendo apurada também por outras fontes, inclusive no Censo do IBGE. Esta tendência está certamente relacionada à universalização do acesso aos anos iniciais da escola, atingida na década de 90. A necessidade de ir além da simples classificação das pessoas como analfabetas ou alfabetizadas foi o que motivou o Instituto Paulo Montenegro a desenvolver e realizar o INAF. O objetivo maior é conhecer quais as reais habilidades daqueles que são classificados como alfabetizados. Introduzindo o conceito de alfabetização funcional, podemos dizer que, após 7 anos de existência do indicador, o assunto passou efetivamente a ocupar um lugar na agenda das discussões sobre educação no país.

TPE: Observando a evolução do Inaf entre 2001 e 2007 percebe-se que a maior parte da população está concentrada nos níveis de alfabetização rudimentar e básica. Além disso, 27% das pessoas que tem escolaridade entre a 5ª e a 8ª série do Ensino Fundamental são analfabetos funcionais. Como explicar esses números?

ALM: Para entender essa realidade é preciso levar em conta que nessa amostra estão pessoas mais velhas, com escolaridade entre 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental e outras mais jovens, com a mesma escolaridade, que ingressaram na escola em meio ao processo de universalização do Ensino Fundamental. Estas últimas, em sua maioria, pertencem a segmentos sociais mais frágeis, cujos pais têm baixa escolaridade, sem hábitos de leitura. Para estes alunos, a escola deveria ser cada vez mais forte para compensar essas fragilidades. Mas o que percebemos é que o sistema de ensino e as próprias escolas não estavam preparados para receber esses alunos e garantir o seu aprendizado.

TPE: Ao mesmo tempo, vemos que o número de pessoas plenamente alfabetizadas, entre aqueles que têm escolaridade entre 5ª e 8ª série do Ensino Fundamental, caiu de 23% para 16% entre 2001 e 2007. Esse é um alerta?

ALM: Essa diminuição entre o número de pessoas plenamente alfabetizadas alerta para baixa qualidade do ensino. Por isso, as medidas a serem tomadas devem por um lado melhorar a qualidade do ensino e, por outro, também garantir o acesso e permanência desses alunos na escola. Esse é um processo que precisa ser combatido com ações de médio e longo prazo. Para alcançar bons resultados, a implementação de políticas não podem ter caráter eleitoreiro. Por isso, acredito ser necessário que sejam construídas políticas de estado com o envolvimento de toda a população.

Fonte: Todos pela Educação